O custo de deixar de pensar
Recentemente estive envolvido na avaliação de candidatos para uma vaga de desenvolvedor, e gostaria de partilhar uma preocupação que surgiu durante essa experiência.
Uma das etapas do processo envolvia um teste técnico — construir um pequeno projecto. Algo simples, com espaço para criatividade e demonstração de domínio técnico. Até aqui, tudo normal.
Mas ao analisar os projectos enviados, algo chamou-me imenso a atenção: entre 90% e 95% dos projectos analisados foram claramente desenvolvidos com auxílio de IA — ferramentas como o v0, Bolt, Copilot, entre outras.
Achismo? Não, de forma alguma. A estrutura genérica, os mesmos padrões repetidos, a ausência de decisões próprias, a falta de personalidade no código e até mesmo erros típicos de geração automática denunciavam uma dependência quase total dessas ferramentas.
O problema não é a IA — é a terceirização do raciocínio
Vamos deixar uma coisa bem clara: não sou contra o uso de IA para apoiar o desenvolvimento. Muito pelo contrário, uso-a bastante no meu dia-a-dia e acredito que saber utilizá-la de forma inteligente é uma competência valiosa no mercado actual. Inclusive, tenho um artigo que fala exactamente sobre isso: Não é sobre a IA.
O verdadeiro problema surge quando o candidato não demonstra o próprio pensamento, entendimento ou domínio sobre aquilo que "supostamente" criou.
Um teste técnico é, acima de tudo, uma oportunidade de:
- Mostrar como entende e encara um problema;
- Comunicar as suas escolhas técnicas (por exemplo, optar pela ferramenta X em vez da Y);
- Demonstrar clareza de raciocínio;
- Exibir domínio da stack proposta;
- Revelar a capacidade de escrever código limpo, funcional e consciente.
Se o seu teste técnico não reflete a sua capacidade de resolver problemas, compreender requisitos, tomar decisões técnicas e escrever código que realmente domina — então o teste perde completamente o seu propósito.
A ideia é bem simples: o projecto é seu — e deve reflectir a sua forma de pensar.
Se você entrega um projecto que a IA praticamente escreveu sozinha, sem contextualização nenhuma, sem as tuas decisões visíveis, então não estás a apresentar-se como um profissional plenamente qualificado, mas apenas como alguém que sabe pedir coisas a uma IA.
Um conselho directo
Aqui vai um conselho para quem se prepara para processos selectivos: evite depender da IA para resolver completamente testes técnicos.
Quer usar como apoio? Tudo bem, use. Mas mostre o seu raciocínio, explique as suas decisões, comente o seu código e, principalmente, faça com as próprias mãos aquilo que realmente domina.
Não precisas impressionar com algo super avançado — precisas apenas mostrar que sabes o que estás a fazer.
Seja honesto consigo mesmo, mostre quem você é de verdade. E se ainda está a aprender, não há problema algum: é melhor demonstrar domínio sobre pouco, do que entregar muito sem entender nada.
Se você é dev, recrutador ou está estudando programação, quero saber sua opinião: já usou IA em testes técnicos? Já passou por situações parecidas? Comente, compartilhe, critique.
