A obesidade que ninguém vê
Nos últimos meses, tenho pensado bastante sobre a forma como aprendo. E no meio desses pensamentos, há uma pergunta que insiste em aparecer: "Qual foi a última coisa que aprendi que realmente mudou a forma como eu trabalho ou encaro as coisas?"
Não estou a falar de algo que achei interessante, nem de um vídeo que achei por aí, muito menos de um artigo que li até ao fim.
Estou a falar de algo que, depois de aprender, me fez tomar decisões diferentes.
Quanto mais eu refletia sobre isso, mais percebia que a dificuldade em responder dizia muito sobre a forma como tenho aprendido.
Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. Se quisermos aprender uma linguagem nova, basta abrir o YouTube (só para que saibam, aprendi a conduzir mota pelo YouTube kkkk).
E se quisermos aprofundar um assunto, existem centenas de livros, cursos, workshops (sobre isso, virou até uma tendência; talvez fale sobre isso num próximo artigo), podcasts (outra febre), comunidades, etc.
Nunca foi tão fácil aprender, mas também nunca foi tão fácil consumir conhecimento sem o transformar em competência.
Talvez estejamos a confundir informação com evolução.
Percebi um detalhe interessante: muitas vezes termino um vídeo e abro outro, termino um artigo e procuro outro, acabo um capítulo e troco de livro.
É como se aprender fosse apenas continuar a consumir… acho isso bastante curioso.
Vejamos um negócio bem interessante: quando temos fome, sabemos que comer sem parar faz mal ao corpo. Mas, quando o assunto é conhecimento, acreditamos que quanto mais consumirmos, melhor. Será mesmo?
Na tecnologia isso acontece todos os dias. Hoje estamos a estudar uma linguagem, amanhã aparece outra, depois um framework, depois uma nova arquitectura, depois uma ferramenta de IA, depois alguém publica um vídeo com um título tendencioso, como: "Os 10 assuntos que todo programador precisa dominar em 2026."
E sem percebermos, voltamos a reorganizar todo o plano de estudos… mais uma vez.
Penso que há uma diferença enorme entre estar atualizado e estar disperso.
Conheço pessoas que sabem conversar sobre praticamente qualquer tecnologia, seja React, Rust, Python, Go, Kubernetes, Docker, LLMs, etc. Mas, quando precisam resolver um problema de verdade (não, não estou me referindo ao problema da Unitel kkk), acabam por recorrer sempre ao mesmo nível de conhecimento superficial.
Até porque ouvir falar não é dominar, conhecer o nome não é compreender e consumir não é aprender.
Começo a acreditar que existe uma obesidade que ninguém vê.
Ela não aparece no espelho, aparece na quantidade de separadores abertos, na lista interminável de cursos, nos livros que acumulamos, nos vídeos guardados para "mais tarde", na ansiedade de sentir que estamos sempre atrasados, mesmo estudando todos os dias.
O mais interessante nisso tudo é que essa obesidade, até certo ponto, parece produtividade. Estamos constantemente ocupados, sempre a aprender, sempre a acompanhar novidades, sempre a acrescentar mais alguma coisa ao plano. Mas raramente paramos para fazer a pergunta mais importante: "Daquilo que estudei este mês, o que realmente passou a fazer parte de mim?"
Porque conhecimento que não altera comportamento acaba por ocupar espaço, e espaço também se esgota.
Talvez seja por isso que tantos desenvolvedores passam anos a estudar e continuam inseguros. Não lhes falta capacidade, nem disciplina. Muitas vezes falta apenas foco, profundidade e tempo suficiente para deixar uma ideia amadurecer antes de correr atrás da próxima.
Talvez o problema nunca tenha sido a falta de informação, talvez sempre tenha sido a dificuldade em escolher aquilo que realmente merece a nossa atenção.
Porque, no fim das contas, aprender também implica renunciar. Sempre que dizemos "sim" a um livro, um curso ou uma tecnologia, estamos, consciente ou inconscientemente, a dizer "não" a dezenas de outras. E talvez seja aí que muita gente se perde, não por estudar pouco, mas por nunca estudar durante tempo suficiente a mesma coisa.
Hoje tenho tentado aprender de forma diferente: menos assuntos, mais profundidade, menos consumo, mais construção, menos tutoriais, mais projectos.
Porque comecei a perceber que o mercado nunca me pagou por tudo aquilo que sei, sempre me pagou por aquilo que consigo fazer. E existe uma enorme diferença entre as duas coisas.
Talvez o conhecimento funcione como a alimentação: não somos definidos pela quantidade que consumimos, somos definidos por aquilo que conseguimos absorver.
O resto… é apenas excesso.
